Zema, um caipira nacional
Enviado por Nairo Alméri - qua 06/05/2026 | às 11h36
Publicado no ALÉM DO FATO
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| Crédito: Dirceu Aurélio/Imprensa Minas |
Se hoje fosse 4 de outubro, talvez, as últimas pesquisas indicassem ao ex-governador Romeu Zema (Novo-MG) ficar em casa. Os gráficos acenam remotas (até impensáveis) as chances de êxito dele contra o dragão (o caixa) da máquina de Governo. E nesta terça (05/05) foram revelados novos dados da vontade popular (ver no final).
No momento, mais que nunca, todos recursos e programas federais são 100% empenhados no foco da campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP). A bem da verdade, é a toada permanente desde o 1°/01/2023, dia da posse do atual governo.
Mas, as pesquisas ainda não refletem dois fatos recentes de peso envolvendo o ex-governador. Um deles, por atitude desastrada de ministro Supremo Tribunal Federal (STF). A Corte aparece sempre como pedra desfavorável à corrida de Zema e fiel ao Planalto, pró-Lula.
Presente do Gilmar: âncora de capanha
O mineiro, então,tropicou mais uma pedra do STF. Esta, posta pelo ministro Gilmar Mendes. Mais uma vez não chorou a dor. Tratou de dar ao obstáculo cor e brilho de talismã político. Conseguiu inverter o jogo na opinião pública. Zema descobriu, então, que caíra em seu colo algo que lhe faltava: uma âncora na plataforma. E tratou de lapidar com cuidado.
O imbróglio surgiu no meio da segunda quinzena de abril. O ministro, com ar de deboche, aquarelou e legendou Zema como um mineiro de roupas fora de moda e de fala caipira. Um combo demodê.
Mal sabia o ilustre letrado, bem-pago e decano da Corte, que acabara, pois, de servir ao mineirinho o prato principal do banquete. E deu um empurrãozinho gigante.
Então, com cigarro de fumo de rolo e chapéu de “paia”, o ex-governador parte para sua alquimia. E muda o eixo dos discursos nesta abertura oficial do calendário eleitoral. O país sai do eterno bordão de Lula, CUT e PT, do “nós contra eles” (ou “pobres contra os ricos”), e entra no consumo do “(nós) contra os intocáveis de Brasília” (veja no link abaixo).
“Falo como brasileiro simples, não com português esnobe
Isca bem mordida
Gilmar, na intenção de seguir uniformizado de exemplar serviçal de Lula, só não atribuiu a Zema a malversação administrativa à frente do Governo de Minas Gerais. No mais, o lacrou em pacote odioso.
Um dos motivos de Gilmar: o ex-governador, embalado no descrédito do STF perante a opinião pública, pediu as prisões dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes.
Toffoli e Moraes, desde novembro de 2025, marcham atolados (Moraes, via sua mulher) nos escândalos do Grupo Banco Master e seu dono, Daniel Vorcaro mostrados em citações nas investigações da Polícia Federal (PF). “Dias Toffoli e Alexandre de Moraes não merecem só processo de impeachment, merecem prisão”. Defesa de Zema em discurso para dirigentes do comércio de São Paulo.
Relembre AQUI em matéria do Estado de Minas.
Gilmar se apressou; comeu cru
No round do bom de fala contra o caipira, a opinião pública se osicionou favoravelmente a Zema.
Mesmo assim, Gilmar girou, em 180 graus, o singular beiço e investiu contra as vozes da rua. O decano recorreu ao próprio Moraes, apelando pela inclusão do mineiro no inquérito das fakes news. Estaria divulgando “desinformações” e propaganda negativa a ministros do Supremo.
Verdade é que sobra pau de galinheiro pela Esplanada dos Ministérios e adjacências, em Brasília.
Mesmo assim, a onda é surfar a brisa da hora. Do Congresso, por exemplo, pintou o fumacê dos oportunistas (e fisiologistas) de sempre. Até quem nunca soube se o mineiro é baiano, gaúcho ou amazonense, agita bandeirinhas para Zema. Ou seja, vale bater no STF e, por tabela, atingir o peito de Lula.
O estrago de Gilmar foi de peso. Contribuiu, por exemplo, para Lula não pisar em palanques do sindicalismo do ABC, da CUT e do PT no 1º de Maio (Dia do Trabalho) pelo segundo ano consecutivo. Além disso, o manteve fora (pelo quarto ano seguido) da principal feira internacional de tecnologia agrícola da América Latina, a Agrishow, em Ribeirão Preto (SP).
Zema de ‘noivinha’ das oito
No final do capítulo, Gilmar, por conta do servicinho pela culatra, virou um convidado bem trapalhão. Não é uma boa se sentar ao seu lado em mesas tanto no Planalto quanto no STF.
Enquanto isso, Zema, que não caiu de vítima nem baixou a guarda. Soube pisar no tatame da Esplanada. Aplicou um ippon em Lula, em toda a estrutura política e administrativa do Governo e no noticiário privado a serviço do Planalto.
Zema, fora das claques, lidera convites nos holofotos da oposição e pedidos para as fotos. Emplacou como o caipira queridinho nacional. A despeito das pesquisas, avançou na parte da população do antilulismo.
Dividendos da maré baixa; bateu traíra
Dentro do Supremo, a bancada do PT, apesar de ter 8 dos 10 ministros (uma cadeira segue vaga) foi torpedeada pelo caso Master. E, de quebra, veio o cometa Zema, que traçou mais uma faixa zebrada entre o Congresso e o STF.
O combo indesejável pelo Governo do PT teve de abrir espaço à recusa, pelo Senado, do ministro-chefe da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para o STF. Era indicado por Lula.
A recusa foi um fato histórico. Brasília se ocupa em identificar “traidores” dentro do Senado. Senadores teriam comido polpudas emendas parlamentares para seus currais e não retribuíram Lula. Além disso, criado ramificações de aliança contrária ao Planalto até na Suprema Corte.
Ainda um azarão, como em 2018
Zema, talvez, ainda segue visto por Gilmar abrindo alguma porteira pelos sertões de Minas. Mas, o provável, é que deve pitar, enquanto aguarda milagres nas pesquisas.
Nesta terça (05/05), a pesquisa revelada pelo Real Time Big Data não refletiu bonificações para Zema, nem por sua investida contra o STF nem na defesa do trabalho para adolescentes.
Zema era cavalo paraguaio, em 2018, quando estreou na política e concorreu para o Governo de Minas. Começou desconhecido nas primeiras pesquisas, abaixo dos 7%.
Mas foi para o 2° turno e venceu, com 71,4%, o ex-governador Antônio Anastia (PSDB), que recebeu 28,6% dos votos. O candidato do PT, o então governador Fernando Pimentel, ficou em terceiro no 1° turno.
Em 2022, Zema foi reeleito, no 1° turno, com 56,18%, contra 35,08% para Alexandre Kalil (PSD). PT não apresentou candidato.

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